segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Artesania da Imagem: Impressões Fotográficas.



 Impressões Fotográficas.
Processos Artesanais em Fotografia.



1.  Introdução

      A história da fotografia contém um número grande de personagens, e seu início se deu em 1839, ocorrendo quase que simultaneamente na França, Inglaterra e Brasil. O processo foi descoberto pôr  Louis Jacques Mandé Daguerre, embora este tenha sido popular até meados de 1850, tendo pouca influência na fotografia do século XX. Foi o inglês, William Henri Fox Talbot, o inventor do processo negativo/positivo que se utiliza até os dias de hoje, sendo portanto o inventor do processo fotográfico.

Paralelamente aos acontecimentos da Europa, o francês radicado no Brasil, Hercules Florence, desenvolveu seus trabalhos a cerca do processo fotográfico, havendo registros históricos de sua contribuição para o desenvolvimento da fotografia, tendo portanto dados que possam considerá-lo como co-descobridor do processo fotográfico.
Em quase dois séculos de existência a fotografia evolui juntamente com a evolução tecnológica e de acordo com as características e correntes de cada época.
A maioria dos processos fotográficos de valor histórico é hoje desconhecido até pôr muitos profissionais da área, sendo que estes acreditam que este tipo de fotografia esteja ultrapassado pôr não permitir trabalhar com velocidade exigida nos dias de hoje.
No entanto, alguns têm utilizado estes processos no desenvolvimento de novas linguagens visuais, devido a possibilidade de manipulação que se perdeu com a fotografia industrializada. Seu valor como meio de criação artística é incontestável.

2.  Resumo Cronológico
Desde que a fotografia foi inventada centenas de processos que utilizam a luz para registrar imagens foram descritos, sendo alguns destes apenas variações de outros processos. A intenção deste texto é fornecer uma breve descrição dos principais processos fotográficos do século XIX.

·    1834 – Photogenic Drawing – antecede a descoberta oficial da fotografia e as imagens não eram fixadas, apenas estabilizadas para não desaparecerem rapidamente quando expostas à luz. Basicamente, eram feitos com papel embebido em solução de sal de cozinha que era sensibilizado com nitrato de prata e exposto a luz para seu escurecimento. Eram simples fotogramas de objetos, plantas, etc.... pois a idéia de negativo não havia sido desenvolvida. Seu inventor, Fox Talbot só comunicou seu invento após a comunicação oficial de Daguerre.
·     1839 – Daguerreótipo – este processo fotográfico que leva o nome de seu inventor, Louis J. M. Daguerré era obtido recobrindo –se uma placa de cobre com uma fina camada de prata, que era submetida ao vapor de iodo para sua sensibilização. As placas eram colocadas na câmera fotográfica e expostas à luz pôr até alguns minutos. Depois, eram reveladas em vapor de mercúrio e fixados em solução de tiossulfato de sódio. Seu maior problema era o de não poder ser reproduzido. Além disto, sua visualização é difícil, dependendo do ângulo de incidência da luz.
·  1840 – Papel Salgado – este tipo de fotografia  atribuído a Fox Talbot é um desenvolvimento do pothogenic drawing, o qual é fixado pelos sais de tiossulfato de sódio, tornando o processo resistente à luz.
·   1841 – Calótipo – é o primeiro negativo. Feito em papel era necessário encerá-lo para aumentar sua transparência e assim produzir uma cópia em positivo (geralmente feita com o papel salgado). Também é uma invenção de Fox talbot , sendo o processo que deu origem ao sistema negativo/positivo utilizado até os dias de hoje.
·    1846 – Placa úmida de colóide é um negativo feito com colóide (nitrato de celulose) aplicado sobre uma placa de vidro; sensibilizado  e exposto à luz ainda úmido. Além de ser mais fácil de copiar, devido à sua natural transparência, era mais sensível, reduzindo o tempo de exposição.
·     1850 – Papel de albúmen – é uma fotografia na qual a clara do ovo é usada para reter os sais sensíveis à luz na superfície do papel. Foi o processo mais popular do século XIX, e só foi abandonado com o aparecimento dos papéis cobertos com gelatina. Sua descoberta é atribuída ao francês Louis D. Blanquart-Evrand.

·      Papéis que não usam a prata como material sensível a luz:
A busca pôr fotografias que não usassem compostos de prata aconteceu ao longo da história porque observou-se logo nos primeiros anos que havia uma tendência de desaparecimento da imagem (fading). Este efeito se dá devido a uma instabilidade da prata metálica que tende a oxidar-se ao reagir com gases atmosféricos ou substâncias presentes no papel.

·   1840 - Cianótipo – descoberto por Jonh Herschel, é um tipo de fotografia que usa moléculas de ferro sensíveis à luz. O composto formado na sua superfície é o ferricianeto férrico ou azul da prússia, pois confere a cor azul a esse tipo de fotografia.
·   1850 - Goma dicromatada – baseada nas descobertas de Alphonse Poitevin, é feita com uma mistura de goma arábica, pigmento de aquarela e dicromato de potássio que são aplicados ao papel. O dicromato quando exposto à luz tem a capacidade de endurecer a goma arábica, fixando o pigmento ( que pode ser de qualquer cor). A parte que não recebeu luz é lavada após a exposição e deixa aparente somente o papel.
·    1873 – Platinotipia – patenteada por William Willis é o processo fotográfico mais estável conhecido, sendo utilizado até a atualidade.

3.  Prática
    Informações importantes.
Antes de iniciar qualquer dos processos fotográficos é necessário conhecer os cuidados que se deve ter para manipular os químicos de forma a evitar acidentes. Para isto, deve-se preparar adequadamente a área de trabalho, utilizando sempre o material apropriado para cada etapa. Na dúvida, pergunte ao professor antes de realizar cada operação.
Muitos produtos químicos são tóxicos e devem ser cuidadosamente pesados, evitando derrubá-los sobre as superfícies trabalhadas. Caso isto aconteça devem ser limpos de acordo com a instrução do coordenador do trabalho. Cuidado ao diluir as soluções. Evite contato com a pele e mucosas. Trabalhe com avental e luvas. Em caso de acidente deve-se lavar a região imediatamente. Trabalhe sempre em área ventilada.
Pincéis utilizados, devem ser marcados no cabo para qual solução estão disponíveis. As trocas destes provocará contaminação e a perda de toda a emulsão preparada.
Papéis emulsionados devem ter uma pequena marca a lápis indicando o lado que recebeu a emulsão. Estes devem ser mantidos sob a segurança ou no escuro até a exposição a luz.

·      Escolha do papel.
A qualidade de sua fotografia e sua durabilidade vão depender do tipo de papel escolhido.
Os papéis utilizados na maior parte do tempo são feitos de celulose. A digestão de suas fibras não é completa, fazendo que estes produzam ácidos voláteis que com o tempo vão atacar a imagem fotográfica. Por isso, os papéis de melhor qualidade são aqueles feitos de fibras finas como o linho e o algodão. Como estes papéis são caros, usa-se em muitos casos papéis de fibras de madeira que foram tratados com substâncias alcalinizantes, os chamados livres de ácidos (acid-free). Em alguns casos estes papéis alcalinos reagem com a emulsão e não dão bons resultados. A melhor maneira de saber se um papel é adequado é fazendo testes.
Outro problema relacionado com papéis para fotografia é o tamanho de suas fibras. Papéis  de fibras curtas em geral desmancham ou enrugam quando colocados em água. Em alguns casos é preciso fazer um reforço na cola do papel, que pode ser amido ou gelatina. Para se saber se um papel é resistente ao processo fotográfico faz-se uma pré lavagem em banheira fotográfica com água a 40°C pôr 20 minutos. Se após a secagem o papel estiver intacto poderá ser utilizado.

·      Cianótipo
·      Materiais necessários
  Papel fabriano (tipo Tiziano)
  Solução A, composta de citrato de ferro amoniacal (verde)     20%
                                           H20 destilada                                    100 ml
  Solução B, composta de ferricianeto de potássio [k3Fe(CN)6     8%
                                          H20 destilada                                        100 ml

  Solução C, composta  de  (intensificador de cor)
                                            H202     (água oxigenada)                    10 vol.
                                            H20 destilada                                      1:10 diluição
  Balança de pesagem
  Becker pequeno
  Pincel n° 20
  Imagem negativo – Kodalite/xerox à laser  invertido/negativo pinhole
   Secador
  Frascos escuros
  Recipientes diversos/escuros
  Papel toalha
  Banheira
  Lápis
  Régua
  Fonte U.V. ou Sol
  Printing frame

·      Método

A cianotipia foi um dos primeiros processos de impressão fotográfica em papel.
Foi descoberta pôr John Herschell em 1840, e, segundo autores, foi ele, o descobridor do hipossulfito como agente fixador.
A cianotipia tem este nome porque as imagens produzidas apresentam-se em azul. Isto acontece pelo fato de se usar sais de ferro e não de prata em seu processo. Também é conhecida como ferroprussiato.
A emulsão é muito lenta, sendo impraticável ampliar negativos sobre papel ao ferroprussiato. Assim, a cópia é obtida pôr contato, numa prensa especialmente construída (printing frame), embaixo de uma rica luz em UV, podendo ser a própria luz do sol, sendo nesse caso, que a impressão pode demorar de  15 a 45 minutos, dependendo da densidade do negativo, mas se trata de um processo que proporciona imagens mais permanentes,( o cianótipo é muito mais inalterável com o passar do tempo que as fotos modernas) além de usar produtos mais baratos que em qualquer  outra técnica fotográfica.
As emulsões , para maior durabilidade, devem ser preparadas em duas partes, que se juntam somente no momento de uso e devem ser armazenadas em recipientes opacos. Mas vez misturados as emulsões, estas perdem a sensibilidade rapidamente.
Dependendo do tipo de papel (opcional), pode-se tratá-lo antes de receber  a emulsão sensibilizadora,  com uma camada de gelatina (ver goma dicromatada) e posto para secar, para que a solução sensível não seja absorvido a fundo pelas fibras do papel, o que ocasionaria resultados inferiores.
Misturar as soluções A e B em igual proporção no momento do uso. ( 40ml são suficientes para aproximadamente 20 negativos de 10X12,5 cm). Aplicar com pincel macio e chato, com movimentos suaves vertical e horizontalmente, sem deixar encharcar  o papel. Deixar alguns minutos para a emulsão penetrar no papel e secar com o secador.
A escolha do negativo é muito importante para o produto final, sendo este de densidade mais suaves, preferencialmente.
Montar no printing frame a imagem pôr contato, e submetê-la a fonte de luz, até que as imagens se tornem azul acinzentada.
Lavar pôr 10 minutos em água corrente. Para que a imagem atinja mais rapidamente o tom final, fazer um banho de intensificação da cor ,composto C, contendo água oxigenada (10 vol.) diluída 1:10 em água. Lavar novamente e secar.

·      Goma Dicromatada
·      Materiais necessários
  Papel fabriano (tipo Tiziano)
  Printing frame
  Pincel  n° 20
  Balança de pesagem
  Imagem negativo – Kodalite/xerox à laser  invertido/ negativo pinhole
  Secador
  Recipientes diversos/escuros
  Papel toalha
  Frascos escuros
  Banheira
  Lápis
  Régua
  Fonte U.V. ou Sol
  Pré tratamento do papel

Solução contendo,  gelatina incolor (pó ou folha)         30g
                              H20 destilada     (40°C)                 1litro   
                               gotas de formoldeído                 5%
  Solução A, composta de dicromato de amônia          35,7g               
                                           H20 destilada                    65 ml

  Solução B, composta de goma arábica em pó            70g
                                          H20 destilada                     200ml
                                           pigmento
                                           gotas de formaldeído  
  Solução C, composta de bissulfato de sódio              30g     

                                    H20 destilada                      1litro



·      Método
Este processo se baseia na propriedade que algumas gomas naturais ou sintéticas possuem de endurecer-se por ação da luz, na presença do dicromato de amônio ou potássio. O processo foi descoberto em 1855 por Alphonse-Louis Poitevin (1819 - 1892) e foi aplicado em 1856 por John Pouncy (1820 - 1894) que obteve as primeiras imagens utilizando esse processo. Contudo, essa processo não proporciona a nitidez e a escala tonal dos processos precedentes, mas permite uma grande riqueza de textura e uma variedade cromática imensa. A emulsão da goma arábica se mistura com um pigmento colorido (aquarela, guachê, anelina ,etc).
Após a exposição à luz, as partes em que a goma endureceu, proporcionada pela luz recebida, retém o pigmento, e, nas áreas não afetadas pela luz, a goma continuará solúvel, e, o pigmento, será eliminado com a lavagem em água corrente.
Antes de iniciar o trabalho, é necessário um pré encolhimento das fibras do papel, (principalmente se for artesanal) para que o trabalho não seja prejudicado. Para tanto, o papel deve ser imerso em água pôr alguns minutos e secados.
Neste processo, é importante trabalhar com papel de boa qualidade (acid-free), resistente à água, corretamente impermeabilizado com gelatina e tratado com formaldeído ( pré-tratamento do papel).
Após a impermeabilização, (duas imersões)o papel poderá receber as emulsões.
A diluição da goma arábica deve ser feita em água com temperatura em volta de 40°C.
 Para sua conservação, deve-se acrescentar algumas gotas de formaldeído, que evita a fermentação de substâncias orgânicas.
As soluções A e B devem ser misturadas em volumes iguais, em segurança, na luz do laboratório, sendo que antes deve-se acrescentar o pigmento a solução B. A quantidade desse pigmento é opcional, dependendo da intensidade cromática que se deseja obter (p. e. 5g de pigmento/30 cc de solução B).
A mistura sensível à luz deve ser aplicado sobre o  papel, previamente tratado, usando para isto, um pincel plano e chato, de pêlos macios, preferencialmente, efetuando a aplicação da emulsão  com uniformidade e rapidez, em sentido horizontal e vertical, Nesta etapa, cuidado para não encharcar o pincel, para não formar poças no papel, o que pode, comprometer o produto final.
Secar e montar o printing-frame colocando o papel com a imagem desejada.
Deixar em exposição  à luz pôr aproximadamente 10 minutos ( pode-se fazer teste para encontrar o tempo ideal). Após exposição à luz, colocar o papel com o lado sensibilizado para baixo, em um recipiente contendo água corrente, em temperatura ambiente, até que o pigmento que não foi incorporado seja retirado.
A imagem obtida é muito delicada, portanto, cuidado com movimentos bruscos durante a lavagem. Deixe que a solução de goma e pigmentos não fixados pela luz se desprenda naturalmente.
Esta “revelação” em água deve durar aproximadamente de 20 a 30 minutos, ficando a cargo do operador a determinação do tempo, dependendo de suas necessidades e efeitos desejados.
Terminado a lavagem, deve-se colocar a imagem já revelada em água fria, durante aproximadamente 5 minutos, para o endurecimento da emulsão.
Muitas vezes, o fundo branco do papel fica ligeiramente amarelado, devido ao dicromato , sendo que este efeito pode ser suavizado, imergindo novamente o papel em uma solução de bissulfato de sódio, durante 5 minutos. Lavar pôr aproximadamente 5 minutos.
Após a secagem do papel, temos a imagem perfeitamente fixada; se desejado pode-se emulsionar novamente, usando outras colorações de pigmentos, possibilitando desse modo, bicromias, tricomias.

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